Pressão por resultados, prazos que não podem ser adiados, responsabilidade sobre decisões relevantes, conflitos, demandas de clientes, exposição constante a problemas complexos e uma cultura profissional que frequentemente associa disponibilidade a comprometimento. Quem atua no Direito reconhece muitos desses elementos como parte da rotina.
O problema começa quando aquilo que deveria representar momentos específicos de maior exigência se transforma no modo permanente de trabalhar.
A saúde mental ganhou espaço nas buscas, nas organizações e nas discussões sobre o futuro do trabalho. O interesse se intensifica em outubro, especialmente em torno do Dia Mundial da Saúde Mental, celebrado em 10 de outubro. Mas, para o setor jurídico, a questão exige um recorte próprio: os dados mostram que estresse, ansiedade, esgotamento e dificuldades relacionadas ao bem-estar não são fenômenos periféricos entre profissionais do Direito.
No 2º Censo do Poder Judiciário, 57,4% dos magistrados e magistradas participantes declararam sofrer de estresse e 55,4%, de ansiedade. Entre servidores e servidoras, a ansiedade foi relatada por 47,9% e o estresse por 37,4%. O levantamento também mostrou que 27,5% da magistratura fazia uso regular de medicamentos para estresse ou ansiedade.
Na advocacia, outros levantamentos apontam na mesma direção. Dados divulgados pelo Conselho Federal da OAB a partir de monitoramentos realizados em Mato Grosso do Sul mostraram que 63% das pessoas participantes relataram cansaço extremo, 47% apresentaram sintomatologia de ansiedade e 33%, sintomas de depressão.
Mais recentemente, em 2026, a OAB de Santa Catarina informou que a psiquiatria era a especialidade médica mais procurada por advogados e advogadas catarinenses na plataforma de saúde oferecida pela entidade, enquanto a psicologia ocupava a segunda posição na procura geral.
São levantamentos realizados em populações, períodos e contextos diferentes e, portanto, não devem ser utilizados para estimar a prevalência de transtornos mentais em toda a advocacia brasileira. Em conjunto, porém, revelam uma questão que merece atenção: a saúde mental precisa fazer parte da conversa sobre carreira, liderança e sustentabilidade no Direito.
Por que a saúde mental merece um olhar específico no setor jurídico?
O trabalho jurídico possui características que tornam essa discussão particular. Não se trata apenas de afirmar que a advocacia ou a magistratura são profissões “estressantes”, mas de compreender de onde vêm as pressões e como elas se acumulam ao longo de uma trajetória.
Prazos processuais, responsabilidade técnica, relacionamento com clientes, necessidade de atualização constante, exposição ao conflito e imprevisibilidade de determinadas demandas fazem parte da própria natureza de muitas atividades jurídicas. Em escritórios e departamentos, essas exigências podem se somar à pressão por resultados financeiros, desenvolvimento comercial, geração de novos negócios e construção de reputação.
A tecnologia trouxe ganhos importantes, mas também tornou as fronteiras entre disponibilidade e descanso menos evidentes. O Perfil ADV, maior estudo demográfico já realizado sobre a advocacia brasileira, ouviu 20.885 profissionais. Ao analisar o avanço do trabalho remoto, a própria pesquisa chamou atenção para os possíveis efeitos do isolamento social e das jornadas flexíveis sobre a saúde mental e o bem-estar.
A discussão não significa que tecnologia, metas, prazos ou ambientes de alta performance sejam necessariamente prejudiciais. A questão está na combinação entre intensidade, previsibilidade, autonomia, apoio e possibilidade real de recuperação.
O WLM já aprofundou essa dimensão no artigo sobre saúde mental na advocacia e esgotamento profissional. Ali, a discussão parte da necessidade de deixar de interpretar o esgotamento exclusivamente como incapacidade individual de suportar pressão. O novo passo é observar os dados do setor e perguntar o que eles revelam sobre os modelos de carreira que estamos construindo.
Estresse não é sinônimo de transtorno, mas também não deve ser banalizado
Um dos riscos das discussões sobre saúde mental é transformar qualquer experiência de cansaço, insegurança ou estresse em diagnóstico. O movimento contrário também é problemático: normalizar níveis elevados de sofrimento porque “a profissão é assim”.
Estresse faz parte da experiência humana e pode surgir diante de situações desafiadoras. O problema está na exposição prolongada a condições de pressão sem recursos suficientes de recuperação, autonomia ou suporte.
A Organização Mundial da Saúde considera riscos psicossociais no trabalho fatores como cargas excessivas, jornadas longas ou inflexíveis, baixo controle sobre as atividades, insegurança, falta de apoio, discriminação, violência, assédio e conflito entre vida profissional e pessoal.
No Direito, vários desses elementos podem aparecer simultaneamente. Um prazo judicial não pode simplesmente ser ignorado em nome do equilíbrio entre vida e trabalho. Uma audiência exige preparação. Um cliente pode enfrentar uma situação de grande impacto financeiro ou pessoal. Existem responsabilidades que fazem parte da atividade.
A pergunta mais estratégica, portanto, não é como eliminar completamente a pressão, mas como evitar que alta exigência seja confundida com exposição permanente à sobrecarga.
Essa diferenciação importa porque modelos profissionais sustentáveis não são aqueles em que nunca existem períodos difíceis. São aqueles que conseguem atravessar períodos intensos sem transformar a excepcionalidade em regra.
Quando a disponibilidade vira medida de comprometimento
A cultura da disponibilidade é particularmente relevante na advocacia. Responder rapidamente, aceitar novas demandas e conseguir lidar com imprevistos podem ser competências importantes. Porém, quando estar acessível a qualquer horário passa a funcionar como prova de comprometimento, os limites entre performance e sobrecarga começam a desaparecer.
O fenômeno nem sempre é imposto explicitamente pela organização. Muitas vezes, ele se desenvolve na cultura. Profissionais observam quem recebe reconhecimento, quem participa dos projetos mais importantes e quais comportamentos parecem associados a oportunidades de crescimento.
Nesse cenário, recusar uma demanda pode ser interpretado não como decisão de capacidade, mas como falta de comprometimento. Para profissionais em início de carreira ou buscando consolidar sua posição, essa percepção pode ser especialmente difícil.
É nesse ponto que a discussão sobre saúde mental encontra o tema dos limites. No artigo Por que tantas mulheres sentem que precisam dizer “sim” para tudo?, o WLM já discutiu como disponibilidade, desejo de corresponder às expectativas e necessidade de reconhecimento podem fazer com que oportunidades se transformem progressivamente em acúmulo.
O problema não está em aceitar desafios. Muitas carreiras são construídas justamente quando profissionais assumem projetos maiores do que aqueles com os quais já estavam confortáveis. A diferença está na capacidade de escolher quais desafios fazem sentido e reconhecer quando o volume de responsabilidades deixa de contribuir para o desenvolvimento.
A experiência das mulheres no Direito acrescenta outras camadas
A saúde mental no setor jurídico também precisa ser observada a partir de gênero, porque trajetórias profissionais não acontecem em condições idênticas.
O Perfil ADV mostrou que as mulheres já correspondem a aproximadamente metade da advocacia brasileira. A presença numérica, entretanto, não elimina diferenças relacionadas à progressão profissional, às responsabilidades de cuidado, ao reconhecimento de autoridade e à participação nos espaços de decisão.
Para algumas mulheres, isso pode significar conviver simultaneamente com alta exigência profissional e uma sensação constante de que ainda é necessário demonstrar competência. Quando toda entrega precisa confirmar que a profissional merece estar naquele espaço, a busca por excelência pode gradualmente se confundir com autocobrança.
Essa discussão aparece também no fenômeno da impostora. No artigo sobre síndrome da impostora no Direito, o WLM aborda como profissionais qualificadas podem ter dificuldade de reconhecer a própria competência, atribuindo resultados positivos a fatores externos e aumentando continuamente o nível de exigência sobre si mesmas.
Seria equivocado transformar toda insegurança profissional em uma questão de gênero ou presumir que todas as mulheres vivenciam as mesmas experiências. O ponto é outro: quando responsabilidades externas, menor acesso histórico a determinados espaços e expectativas profissionais se acumulam, os efeitos sobre a carreira também precisam ser observados de maneira mais ampla.
No próprio Poder Judiciário, os dados mostram diferenças relevantes. No 2º Censo, 29,8% das magistradas declararam já ter sofrido assédio no trabalho, contra 18,3% dos magistrados homens. Entre servidoras, o percentual foi de 25,2%, comparado a 20,6% entre servidores.
Saúde mental, nesse sentido, também está relacionada à qualidade dos ambientes nos quais as carreiras são construídas.
Segurança psicológica não significa trabalhar sem cobrança
Um dos equívocos mais comuns é interpretar um ambiente psicologicamente seguro como um ambiente sem exigência, conflito ou responsabilização.
Segurança psicológica significa algo diferente: criar condições para que profissionais possam fazer perguntas, admitir dúvidas, sinalizar problemas, discordar e pedir ajuda sem presumir que qualquer demonstração de vulnerabilidade colocará sua reputação em risco.
Em uma atividade baseada em conhecimento e tomada de decisão, isso possui implicações que ultrapassam o bem-estar. Uma equipe na qual ninguém se sente confortável para dizer que identificou um risco, que não compreendeu uma orientação ou que determinado prazo se tornou inviável também pode aumentar a probabilidade de erros.
O WLM já explorou essa relação no conteúdo sobre segurança psicológica no trabalho e ambientes profissionais mais seguros. A questão é especialmente importante no Direito, onde hierarquia, senioridade e autoridade técnica exercem forte influência sobre as relações profissionais.
Promover segurança psicológica não implica reduzir o padrão de qualidade. Ao contrário, significa criar condições para que problemas apareçam antes de se transformarem em consequências maiores.
O que a saúde mental revela sobre liderança jurídica?
A discussão também precisa chegar às posições de liderança. Sócios, gestores jurídicos, magistrados em funções administrativas e lideranças de equipes influenciam diretamente a maneira como pressão, prioridades e expectativas são distribuídas.
Liderar não significa assumir a responsabilidade clínica pela saúde mental das pessoas. Essa função pertence aos profissionais especializados. A responsabilidade da liderança está em observar aquilo que pode ser modificado dentro da própria organização.
Isso envolve perceber se todas as demandas são tratadas como urgentes, se expectativas são claras, se a distribuição do trabalho é sustentável, se existem critérios objetivos de desempenho e se profissionais conseguem sinalizar dificuldades antes de atingir o limite.
Também envolve observar os comportamentos que a própria organização recompensa. Uma empresa pode defender equilíbrio em sua comunicação institucional e, ao mesmo tempo, promover sistematicamente quem demonstra disponibilidade permanente. Quando isso ocorre, a cultura real costuma falar mais alto do que qualquer política formal.
Essa reflexão se conecta diretamente ao protagonismo feminino defendido pelo WLM. O objetivo de ampliar a presença de mulheres nos espaços de liderança não pode estar dissociado de uma pergunta sobre que modelos de liderança queremos reproduzir quando chegamos a esses espaços.
Crescer profissionalmente não deve significar apenas aprender a suportar a cultura existente. Também pode significar adquirir influência suficiente para transformá-la.
Carreiras sustentáveis exigem decisões, não apenas resistência
No Direito, resistência costuma ser valorizada. Suportar períodos intensos, lidar com situações complexas e manter a capacidade de decisão sob pressão são competências importantes. Mas a resistência não deveria ser o único indicador de sustentabilidade profissional.
Uma trajetória construída exclusivamente sobre a capacidade de suportar cada vez mais tende a encontrar algum limite. Por isso, saúde mental também precisa integrar o planejamento de carreira. Ao avaliar uma oportunidade, a pergunta não deveria ser somente “isso me faz crescer?”, mas também quais competências ela desenvolve, quais responsabilidades exige, qual espaço ocupará e se está alinhada ao momento da trajetória.
Fazer escolhas estratégicas implica reconhecer que tempo e energia são recursos limitados. Toda nova responsabilidade também representa uma decisão sobre aquilo que deixará de receber atenção.
Isso não reduz a ambição. Pelo contrário, permite direcioná-la.
Quando profissionais deixam de medir crescimento apenas pelo volume de trabalho assumido e passam a considerar aprendizado, influência, autonomia e impacto, a noção de sucesso também se torna mais sofisticada.
Redes profissionais também podem funcionar como espaços de proteção
A carreira jurídica possui um forte componente relacional. Informação, oportunidades, referências e possibilidades de desenvolvimento circulam por meio de pessoas e comunidades profissionais.
Essas redes não substituem acompanhamento psicológico ou psiquiátrico quando ele é necessário. Mas podem reduzir um fator importante de vulnerabilidade: o isolamento.
Conversar com profissionais que atravessam desafios semelhantes ajuda a perceber quando determinado problema é individual e quando reflete uma dinâmica mais ampla do mercado. Mentoras, colegas e comunidades também podem oferecer repertório para decisões difíceis e ampliar a percepção sobre caminhos possíveis.
Essa é uma das dimensões abordadas no artigo sobre networking estratégico no Direito. Networking não se resume à geração de oportunidades comerciais. Redes profissionais também permitem a circulação de conhecimento, referências, apoio e experiências que ajudam a construir carreiras mais conscientes.
Para o WLM, essa construção coletiva é particularmente importante. Potencializar competências e ampliar o protagonismo feminino significa também criar espaços nos quais mulheres possam trocar experiências, desenvolver repertório e perceber que determinados desafios não precisam ser enfrentados de maneira isolada.
Saúde mental precisa continuar sendo pauta depois de outubro
O Dia Mundial da Saúde Mental, celebrado em 10 de outubro, ajuda a ampliar a atenção para uma discussão que ainda enfrenta estigmas. A data possui valor justamente porque cria espaço para informação, conscientização e revisão de práticas.
No setor jurídico, porém, essa conversa não pode terminar junto com o calendário.
Quando mais da metade dos magistrados participantes de um censo relata estresse e ansiedade, quando levantamentos com profissionais da advocacia identificam níveis relevantes de cansaço, sintomas ansiosos e depressivos e quando entidades da própria categoria ampliam iniciativas de cuidado, existe uma mensagem importante nesses dados: o desempenho do sistema jurídico também depende das condições em que seus profissionais trabalham.
Isso não significa patologizar uma profissão, tampouco atribuir todos os problemas de saúde mental ao trabalho. Significa reconhecer que ambientes profissionais podem contribuir tanto para o bem-estar quanto para o desgaste e que organizações possuem responsabilidade sobre aquilo que conseguem transformar.
Para mulheres que constroem suas trajetórias no Direito, essa discussão se conecta diretamente com protagonismo, liderança e permanência. Não basta ampliar o acesso aos espaços se o modelo para permanecer neles exigir disponibilidade ilimitada, silêncio diante da sobrecarga ou adaptação permanente a culturas pouco sustentáveis.
Uma carreira sólida não é aquela em que nunca existem pressão, dúvida ou períodos difíceis. É aquela em que desenvolvimento, ambição e crescimento conseguem coexistir com condições para continuar.
É por isso que falar sobre saúde mental no Direito também é falar sobre o futuro da profissão. E sobre quais estruturas queremos construir para que mais pessoas, especialmente mais mulheres, possam não apenas chegar aos espaços de influência e liderança, mas permanecer neles com capacidade de decidir, contribuir e transformar.


