COLORISMO – SISTEMA PERVERSO DE HIERAQUIZAÇÃO SOCIAL

O Colorismo é uma construção ligada a uma supremacia branca que discrimina  os negros de acordo com a tonalidade de pele e os traços físicos ligados a origem africana. A população brasileira ela é bastante miscigenada e é essencial discutir as endrenagens do colorismo para entender o Racismo no Brasil. Falar dos diferentes preconceitos que os negros de pele clara e escura sofrem pode ajudar a construir uma unidade na luta antirracista.

Há uma imagem historicamente esteriotipada construída a partir da objetificação, sexualização e negação do povo negro, enquanto sujeito político. Nesse sentido, afeta nossa própria subjetividade, na medida em que nossa imagem é socialmente construída de forma distorcida, baseando-se em mitos e estereótipos. Creio que, assim como mitotologia grega em que Narciso nutre um amor desarcerbado por si, a casa-grande adotou uma sobrevalorização de si, nutrindo um amor desequilibrado por sua própria imagem e, consequentemente, depreciando a imagem de outros sujeitos e pactuando um lugar de subalternidade para corpos negros desde o período colonial até os dias atuais.

Os negros mestiços são menos marginalizados que os de pele escura, mas isso não significa que conseguem se livrar do estigma racial e ter os mesmos privilégios que os brancos possuem. Todos nós sabemos colocar em prática o colorismo, mesmo que nunca tenha escutado essa palavra antes. Isso porque nós dominamos esses códigos racistas invisíveis.

No país como o Brasil em que 56% da população é negra dos quais 46% são considerados negros claros, os chamados pelo  IBGE de “pardos” termo institucionalizado, mas que há inúmeras críticas do movimento negro por não ser um termo que permita uma percepção da vida cotidiana dessas pessoas, pois é apenas na pesquisa do IBGE que se escuta essa denominação racial.

No Brasil ainda não começamos a discutir esse tema de uma maneira mais sistematizada. De fato, não dá para pensar em racismo no Brasil com uma população fortemente miscigenada sem passar pelo colorismo. É necessário pensar de que modo é organizado o espaço público e privado, inclusive as relações afetivas e familiares com base nessas ideias de hierarquização social.

Essa hierarquização é a base do racismo e da própria categoria do eugenismo que foi muito utilizada na Alemanha nazista ou mesmo bem antes disso pelo processo de colonização da África e das Américas. Naquele momento do desenvolvimento do capitalismo se criou o ideário que legitimasse a exploração de um povo pelo outro. Não é apenas uma dominação cultural ou de força apenas, mas uma exploração da humanidade.

Aos falarmos de colorismo existe uma ideia de superioridade que foi criada nesses processos de colonização muito bem utilizada e exercida, e que continua presente nas relações no nosso dia a dia. Costumo dizer que é um projeto histórico que infelizmente vem dando certo.

O colorismo se expressa com algumas peculiariedade de acordo com o contexto histórico de cada país. Nos EUA, por exemplo, foi institucionalizado a segregação com leis que dividiam os espaços de negros e brancos. No Brasil não tivemos leis segregacionistas, mas tivemos leis que proibiram as expressões culturais como a capoeira, pois a antiga lei de vadiagem tinha como foco criminalizar a população negra. A própria expressões de religiosidade de matriz africana foram interditadas no espaço territorial brasileiro.

Já os casamentos inter-raciais não havia leis que proibissem, mas havia um sentimento de preterição enraízado nas população brasileira pela busca do embraquecimento, além disso não se permitia as expressões culturais que revelavam uma simpatia, valorização das culturas relacionadas a africanidade.

O colorismo é baseado na ideia de que há uma hierarquização do povo negro de acordo com sua proximidade com traços associados a africanidade. Alguns países chamam de pigmentocracia, sendo outra forma do racismo se apresentar, na medida em que incluem traços associados a africanidade como cabelo crespo, a largura do nariz, a grossura dos lábios como algo negativo e os traços mais próximo ao europeu como algo positivo. Essa seletividade na identificação racial coloca pessoas lidas como brancas como superiores a pessoas lidas como negras.

Atualmente, há uma visibilidade do tema colorismo e isso se deve ao fato da positiva organização do movimento negro os pioneiros ancestrais dessa luta. Como por exemplo, na revolução dos malês que existia uma ideia muito profunda que era preciso se valorizar costumes que integravam aquela identidade cultural.

No ano de 1978  no Brasil criou se o Movimento Negro Unificado (MNU) com o foco de unir o povo negro diante da violência do  processo de colonização que criou um sentimento de vergonha de se identificar como negro, uma vez que se reconhecer como negro era o mesmo que ser reconhecido como pobre lhe restando apenas os espaços de menor valorização profissional e social.

Com o despertar do orgulho da condição de negro trazido pelo MNU passou-se, assim, a deslumbrar e até mesmo cobrar do Estado como cidadãos por medidas públicas de correção da distoção sócio-economica que é baseada no fato que racializamos pessoas. Inclusive, incluindo as pessoas negras de pele clara, para que  também possam ter orgulho de se identificar como negras.

O critério adotado pelo IBGE de identificação de branco, negro, pardo e indígena ainda não era utilizada naquela época, a categorização era livre a escolha e, assim,  observou-se  inúmeros termos de identificação como: morena clara, morena bombom todos os eufemismos para  não se reconhecer como negro. Pois era muito difícil se declarar negro numa sociedade racista.

Se havia algum tipo de passabilidade vai se tentar valorizar esse lado até por uma questão de sobrevivência para se aproximar de uma etiqueta racial branca e, assim, ter uma vida digna na tentativa de ter as mesmas oportunidades.

É bem recente essa possibilidade de sentir orgulho de sua identidade negra e exercê-la na sua plenitude. Sob a ótica de Lélia Gonzalez a escritora buscou recuperar nos negros de pele clara oriundos da mestiçagem essa autoafirmação, sob o argumento de que eles jamais serão considerados brancos mesmo que tenham traços associados a Europeidade. O fato de ser lido como um negro te determina um lugar na sociedade e que geralmente em uma sociedade racializada é a subalternidade.

Por isso, é importante entender o racismo e compreender o modo como ele se organiza  dentro de uma sociedade miscigenada como é a do Brasil. É preciso entender o colorismo e como se relaciona para hierarquizar esses corpos.

O fato de ser lido como negro pela sociedade não é um ato volitivo, ou seja, que possa a partir  de determinado momento  dizer que não serei negro e assim não serei discriminado. Entretanto, não é assim que funciona a racialização de pessoas. A polícia quando aborda alguém na rua ela não pede a árvore genealógica de ninguém para analisar se existe um avô italiano ou uma avó espanhola.A identificação racial é feita pelo fenótipo, se a pessoa é lida como negra ela terá um tratamento violento.

As estatísticas demonstram de uma forma incisiva que o tratamento é muito mais violento e que não considera os Direitos Humanos como considera em relação a pessoa branca.

Dessa forma, é importante observar que o policial ele é socializado nessa sociedade racista e que também replica o ideário branco. Nós também replicamos, mesmo quando não concordamos, mas o fato é que quando estamos no espaço de poder de maioria branca sabemos quem serve o cafezinho ou quem lava o banheiro, trabalhos estes precarizados e subalternizados. Essa forma de sistematização das relações de trabalhos traça um desenho no imaginário que nos indica que existe a hierarquização de pessoas.

Uma mulher de pele clara tem certas vantagens sociais sobre uma mulher de pele retinta, chamo de vantagem e não privilégio, porque este é um benefício  oriundo da branquitude. Por exemplo, o caso da modelo de pele retinta (Nayara Justino) que foi preterida por outra candidata  negra de pele mais clara no concurso da  globeleza.

Após sofrer inúmeras críticas por sua aparição como globeleza na Rede Globo, maior rede de televisão brasileira, foi convidada a retirar-se  do seu lugar pela produtora, sendo substituída, logo após, por uma pessoa de   pele mais clara.

Mesmo, Nayara Justino, com currículo extenso de dançarina adequado para o quadro, e esta foi  dispensada sem justificativas profissionais

É explícito que o sistema racista traz essa passividade a negra mais clara. Inúmeros exemplos temos na televisão brasileira de passividade para mulheres de pele mais clara como a Camila Pitanga, Taís Araújo ou mesmo homens negros como o Mano Brown com traços mais sutis  e abrasível de acordo com os critérios eugênicos.

A falta de identidade comum entre os negros juntamente com a valorização do  mestiço em detrimento do negro de cor mais escura  gerava  um ambiente propício  para dilemas raciais que viessem segregar grupos marginalizados.

Da mesma maneira como existe o preconceito racial existe o preconceito contra o nordestino. Essa discriminação se dá por conta da aparência e dos traços do indivíduo. Este tipo de preconceito tendencia a discriminar o indivíduo pelos seus traços físicos como gestos, seu sotaque, fisionomia.

A figura estereotipada do nordestino ligado a elemento de  uma sociedade rural, atrasada,  pobre, rústica. Nos  anos 20 a visão eugenista determinava que  pelo fato do nordestino não haver recebido grande  quantidade  de  sangue  ariano,  os mestiços  dessa região eram associados  à  ideia  de serem preguiçosos,  resistentes ao trabalho regular. Essa  imagem de que  o nordestino está ligado ao selvagem, serviu também para  nos erotular como sendo pessoas que não se adapta à modernidade, ao urbano, que não possui qualificação profissional e dessa forma, só consegue  realizar trabalhos desqualificados fixando um lugar de subalternidade para corpos negros nordestinos.

Portanto, para uma luta antirracista é necessário emancipar o povo negro como um todo, e é evidente que a miscigenação é uma realidade que nasce de um ato violento de estupros sistemáticos de mulheres negras e indígenas, compreender essa materialidade da vida é o primeiro passo para superá-la.


Autora:

Rachel Honorato Nascimento

Graduada em Ciência Jurídica pelo Centro universitário de João Pessoa (Unipê), Pós-graduanda em Processo Civil pela ESA/PB. Atualmente advogada aprovada e certificada na OAB na área de Direito Constitucional OAB/ PB 22.355