O que mulheres em início de carreira realmente precisam para construir sua trajetória no Direito? A resposta certamente passa por formação técnica, atualização constante e experiência profissional. Mas dez ciclos de um programa dedicado a aproximar mulheres em diferentes momentos da carreira mostram que existe outra dimensão importante nessa construção: ter acesso a repertórios, referências e espaços nos quais seja possível refletir sobre escolhas profissionais com quem já percorreu outros caminhos.
Desde 2015, o Programa de Mentoria do Women in Law Mentoring Brasil aproxima mulheres em início de carreira de profissionais mais experientes. Ao longo das edições, diferentes trajetórias, áreas de atuação, dúvidas e objetivos passaram por essa experiência. O que acontece dentro de cada relação de mentoria é particular, mas olhar para uma década de programa permite identificar questões que permanecem relevantes para a construção da carreira jurídica feminina.
Essas questões ganham ainda mais importância quando observadas ao lado do cenário atual da advocacia brasileira.
Mulheres já são metade da advocacia brasileira. O que acontece depois da entrada?
A presença feminina no Direito mudou significativamente nas últimas décadas. O 1º Estudo Demográfico da Advocacia Brasileira, o Perfil ADV, realizado pela Fundação Getúlio Vargas a pedido do Conselho Federal da OAB e divulgado em 2024, ouviu 20.885 profissionais. O levantamento identificou que as mulheres representam 50% da advocacia brasileira, enquanto os homens correspondem a 49% e outras identidades de gênero, a 1%.
Os dados revelam também uma diferença geracional relevante. Segundo a OAB, as advogadas têm média de 42 anos, diante de 47 anos entre os homens, e apresentam menor tempo médio de inscrição na Ordem: 11 anos, em comparação a 14 anos entre elas. O cenário indica uma presença feminina especialmente relevante entre gerações mais recentes da advocacia.
Mas aumentar a entrada de mulheres na profissão não encerra a discussão sobre equidade de gênero. É preciso observar também como essas profissionais constroem suas trajetórias, quais oportunidades encontram ao longo do caminho e como chegam aos espaços de influência e decisão. Esse é um ponto que já discutimos ao abordar o protagonismo feminino no Direito: presença e protagonismo não são necessariamente sinônimos.
Estar na profissão é uma etapa. Ter condições para construir uma trajetória sustentável, desenvolver liderança, ampliar influência e participar das decisões que moldam o setor jurídico é outra. É justamente nesse intervalo que experiências de desenvolvimento profissional, redes e mentoria ganham relevância.
Primeira lição: conhecimento técnico é essencial, mas não responde a todas as decisões de carreira
A formação jurídica prepara profissionais para interpretar normas, construir argumentos, compreender instituições e atuar tecnicamente em diferentes áreas do Direito. A carreira, porém, apresenta questões para as quais dificilmente existe uma resposta em um livro: aceitar ou não uma oportunidade, permanecer em determinada área, mudar de especialidade, como se posicionar diante de uma liderança, de que forma comunicar melhor o próprio trabalho ou quando assumir novas responsabilidades.
São decisões que fazem parte da carreira, mas raramente possuem uma única resposta correta. É por isso que a experiência de quem já percorreu outros caminhos pode ser relevante. Não para entregar uma fórmula, mas para acrescentar repertório à análise e permitir que a profissional considere perspectivas que talvez ainda não fizessem parte da sua leitura daquele momento.
No artigo Mentoria jurídica: como funciona e quando buscar uma mentora para sua carreira, aprofundamos justamente essa diferença. A mentoria não transfere para outra pessoa a responsabilidade pelas decisões profissionais. Ela cria um espaço no qual experiências podem ser compartilhadas e novas perspectivas consideradas.
Depois de 10 ciclos, esse talvez seja um dos aprendizados importantes do Programa de Mentoria WLM: desenvolver uma carreira não significa apenas saber mais sobre Direito. Significa também aprender a tomar decisões sobre a profissional que se deseja construir.
Segunda lição: não existe uma única trajetória de sucesso no Direito
A ideia de carreira jurídica costuma ser acompanhada por caminhos aparentemente bem definidos. Escritório, carreira pública, departamento jurídico, especialização, sociedade, gestão ou liderança são algumas das possibilidades que podem aparecer ao longo da vida profissional. Na prática, entretanto, as trajetórias são muito menos lineares.
A própria advocacia brasileira é marcada por diferentes modelos de atuação. O Perfil ADV mostrou, por exemplo, que 72% dos profissionais exercem a advocacia de forma autônoma, enquanto outros estão vinculados a escritórios, empresas ou seguem diferentes caminhos profissionais. Somam-se a isso as diferenças de área, região, momento de vida, objetivos pessoais e oportunidades disponíveis.
Por isso, uma experiência que funcionou para uma profissional não pode simplesmente ser replicada por outra. Esse é um aspecto importante da mentoria: a trajetória da mentora não deve funcionar como roteiro para a mentorada, mas como referência.
Quando uma profissional compartilha como enfrentou uma decisão, quais critérios utilizou, o que aprendeu com determinado movimento ou o que faria de maneira diferente, oferece elementos para que outra mulher construa sua própria análise. Em uma profissão com tantas possibilidades, desenvolver carreira também significa aprender a reconhecer que não existe apenas um caminho legítimo para crescer.
Terceira lição: carreira também se constrói por meio de relações
Competência, desempenho e formação são fundamentais, mas as relações profissionais também fazem parte da construção de uma carreira. Networking, nesse contexto, não precisa ser entendido como acumular contatos ou se aproximar de pessoas apenas quando existe algum interesse imediato. Uma rede profissional consistente é formada por relações capazes de ampliar repertório, aproximar perspectivas e criar espaços de troca.
Essa discussão está diretamente relacionada à importância das redes de apoio entre mulheres no Direito. Quanto mais mulheres conseguem compartilhar experiências, referências e aprendizados, maior é a circulação de um conhecimento profissional que muitas vezes não está disponível nos espaços formais de formação.
A mentoria torna essa relação intencional. Durante determinado período, duas profissionais reservam tempo para conversar sobre desenvolvimento, desafios e escolhas de carreira. Mas o aprendizado dos 10 ciclos do WLM aponta para algo maior do que a relação entre uma mentora e uma mentorada: o desenvolvimento profissional também pode acontecer em rede.
Uma conversa individual pode ampliar uma perspectiva, enquanto a participação em uma rede amplia também a quantidade de referências às quais uma profissional pode recorrer ao longo de diferentes momentos da carreira. Isso ajuda a explicar por que construir comunidades profissionais importa e por que o desenvolvimento não precisa ser entendido como um processo exclusivamente individual.
Quarta lição: referências femininas continuam sendo importantes
Se mulheres já representam metade da advocacia, por que ainda é necessário falar sobre referências femininas? Porque representação numérica e participação nos espaços de liderança são dimensões diferentes.
No Poder Judiciário, por exemplo, o Conselho Nacional de Justiça vem desenvolvendo políticas específicas para ampliar a participação feminina e, em 2026, implementou o Women Judge’s Program, iniciativa de capacitação de magistradas voltada, entre outros objetivos, ao fortalecimento da liderança feminina.
Em setembro de 2026, ao divulgar um dos módulos do programa, o CNJ voltou a destacar que a participação feminina em espaços de gestão e liderança diminui à medida que as mulheres avançam na carreira. Embora magistratura e advocacia tenham estruturas profissionais distintas, o cenário contribui para uma discussão mais ampla sobre a presença das mulheres nos diferentes níveis de decisão do universo jurídico.
Ter contato com mulheres que já ocupam outros espaços profissionais pode ampliar referências sobre aquilo que é possível construir. Isso não significa idealizar trajetórias, presumir que todas as mulheres enfrentam os mesmos desafios ou ignorar diferenças individuais. Significa permitir que profissionais em início de carreira encontrem exemplos diversos de liderança, posicionamento e desenvolvimento.
No WLM, essa lógica está diretamente ligada ao propósito de fortalecer o protagonismo feminino no ambiente jurídico e de criar condições para que diferentes experiências possam circular entre mulheres em momentos distintos de suas trajetórias.
Quinta lição: desenvolvimento profissional também exige protagonismo
Uma mentoria pode oferecer repertório, perguntas, perspectivas e experiências, mas não pode construir uma carreira no lugar da mentorada. Participar ativamente dessa relação exige disposição para refletir sobre objetivos, reconhecer pontos que precisam ser desenvolvidos, levar questões relevantes aos encontros e transformar conversas em aprendizados aplicáveis à própria realidade.
Esse processo se conecta ao que já abordamos sobre posicionamento no início da carreira jurídica. Desenvolver protagonismo não significa ter todas as respostas nem ocupar imediatamente uma posição de liderança. Significa assumir responsabilidade pela própria trajetória e aprender a participar de maneira mais consciente dos espaços profissionais.
A mentoria pode contribuir justamente porque não elimina essa responsabilidade. Ao contrário, quando bem construída, amplia as condições para exercê-la. A mentorada continua sendo autora das próprias decisões, mas passa a analisá-las com acesso a outros repertórios, experiências e perspectivas.
O que os próprios resultados do Programa de Mentoria WLM mostram?
Além das experiências individuais acumuladas ao longo dos ciclos, o WLM já buscou compreender de forma estruturada a percepção das participantes sobre o programa.
Uma pesquisa conduzida pelo GT de Pesquisas do WLM em parceria com a empresa especializada I Love My Job, durante o primeiro trimestre de 2022, analisou percepções de jovens advogadas que participaram do Programa de Mentoria e comparou sua evolução profissional com a de jovens advogadas que não haviam participado.
Segundo os dados divulgados pelo próprio Programa de Mentoria WLM, 97% das participantes pesquisadas relataram impacto positivo da mentoria em suas carreiras. A nota média atribuída ao impacto da mentoria na carreira foi de 8,9, enquanto a satisfação média com a experiência alcançou 9,1.
Os números devem ser interpretados dentro do contexto da pesquisa e não como promessa de resultados individuais. Ainda assim, ajudam a transformar uma percepção recorrente em um dado importante: para as participantes pesquisadas, a experiência foi percebida de maneira amplamente positiva.
Essa leitura também ajuda a compreender por que o programa chega agora ao 11º Ciclo. Continuidade, nesse caso, não significa repetir a mesma experiência, porque cada dupla, cada trajetória e cada momento profissional são diferentes. Significa preservar um espaço estruturado de troca que continua encontrando relevância entre mulheres em início de carreira.
O que 10 ciclos nos permitem dizer sobre o futuro da carreira jurídica feminina?
Dez ciclos não são suficientes para resumir toda a experiência das mulheres no Direito brasileiro, nem seria correto utilizar um programa específico como retrato de uma profissão formada por contextos tão diferentes. Essa trajetória, porém, permite observar necessidades que permanecem relevantes quando falamos sobre desenvolvimento profissional feminino: acesso a referências, espaços para reflexão, construção de redes, desenvolvimento de liderança e oportunidade de aprender com experiências que não são as nossas.
Ao mesmo tempo, os dados nacionais mostram uma profissão em transformação. Mulheres já representam metade da advocacia e têm presença especialmente relevante entre as gerações mais jovens. O desafio que se apresenta é compreender como essa presença se traduz ao longo das trajetórias profissionais e como mulheres avançam também nos diferentes espaços de influência e decisão.
Mentoria não resolve sozinha esse desafio, assim como nenhuma iniciativa isolada poderia fazê-lo. Mas criar espaços em que mulheres possam compartilhar conhecimento, construir relações e desenvolver protagonismo é uma forma concreta de contribuir para essa transformação.
Depois de 10 ciclos, talvez esse seja um dos aprendizados mais importantes: quando experiências deixam de permanecer individuais e passam a circular, elas podem se transformar em repertório para outras mulheres construírem seus próprios caminhos.
O 11º Ciclo está com inscrições abertas
Depois de 10 ciclos, o Programa de Mentoria WLM inicia um novo capítulo. As inscrições para o 11º Ciclo do Programa de Mentoria WLM estão abertas de 01/10 a 26/10 e, nesta edição, o programa terá 8 meses de duração, com encontros mensais entre mentora e mentorada, presenciais ou virtuais ao longo do ano de 2027.
Podem se inscrever advogadas e graduandas em Direito com até 7 anos de formação e que estejam atuando na área, de qualquer estado do Brasil ou do mundo. Quem ainda não é associada ao WLM precisa se associar antes de realizar a inscrição.
Mais do que participar de uma nova edição, candidatar-se é a possibilidade de integrar uma história que vem sendo construída há 10 ciclos por mulheres que acreditam no valor de compartilhar experiências para ampliar caminhos.
Conheça o Programa de Mentoria WLM e confira todas as informações para participar do processo seletivo do 11º Ciclo.


