A insegurança como subproduto do ambiente
Em algum momento da trajetória jurídica, muitas mulheres de alta performance são atravessadas por uma sensação paralisante: a de que são, em última instância, uma fraude prestes a ser desmascarada. Essa percepção se manifesta na convicção silenciosa de que o sucesso alcançado não é fruto de competência técnica ou mérito intelectual, mas de uma combinação fortuita de sorte, timing ou benevolência alheia.
No Direito, esse sentimento é intensificado por uma cultura que exige infalibilidade. O receio de que a próxima audiência, reunião ou parecer exponha uma lacuna de conhecimento transforma-se em um ruído constante de fundo. Mesmo trajetórias consolidadas passam a ser vividas sob vigilância interna permanente.
Esse padrão de pensamento não é uma falha individual ou uma insegurança isolada. Ele encontra respaldo no que a psicologia denomina Fenômeno da Impostora, conceito formulado por Pauline Clance e Suzanne Imes para descrever a experiência de pessoas bem-sucedidas que, apesar de evidências objetivas de suas conquistas, permanecem incapazes de internalizar o próprio êxito.
No ecossistema jurídico, historicamente estruturado sobre símbolos de autoridade masculina, essa sensação é ainda mais aguda. Muitas mulheres operam como se estivessem ocupando um espaço provisório, tentando decifrar códigos de um jogo cujas regras não foram escritas por elas nem para elas.
A anatomia do fenômeno no ecossistema jurídico
A literatura contemporânea prefere o termo “fenômeno” à “síndrome” para afastar a ideia de patologia clínica. Ainda assim, sua incidência no Direito é amplificada por características específicas da profissão.
A cultura da perfeição, associada à baixa segurança psicológica, cria um ambiente onde o erro não é percebido como parte do processo de aprendizado, mas como evidência definitiva de incompetência. Em uma área em que o custo do erro pode envolver prazos fatais, prejuízos patrimoniais e danos reputacionais, o perfeccionismo institucional funciona como uma armadura que, com o tempo, se torna sufocante.
Pesquisas publicadas pela Harvard Business Review indicam que mulheres tendem a subestimar sua própria performance mesmo quando apresentam resultados equivalentes ou superiores aos de homens em ambientes competitivos. O mesmo estudo aponta que homens costumam se candidatar a oportunidades quando atendem a cerca de 60% dos requisitos, enquanto mulheres aguardam sentir-se 100% preparadas antes de se posicionarem.
No Direito, esse padrão se traduz em um ciclo de hipercompensação. A profissional trabalha mais para evitar falhas, atribui resultados positivos ao esforço excessivo e não à competência, e eleva ainda mais o padrão de exigência para a próxima entrega. O efeito é cumulativo e corrosivo.
Esse desgaste impacta diretamente a tomada de decisão, a negociação de honorários, a disposição para assumir riscos estratégicos e, sobretudo, a ocupação de espaços de liderança.
O contexto como arquiteto da dúvida
É essencial deslocar o foco da responsabilidade individual para compreender o papel do ambiente na construção dessa insegurança. Em muitos casos, o Fenômeno da Impostora opera como um sistema de defesa coerente diante de contextos incoerentes.
Quando uma advogada observa que comportamentos assertivos são rotulados como agressivos, enquanto posturas colaborativas são interpretadas como fragilidade, o cérebro desenvolve mecanismos de autocensura para proteção. A dúvida, nesse sentido, não é fraqueza, mas adaptação.
A ausência de modelos femininos em posições de poder, as interrupções recorrentes em falas, a apropriação de ideias e as microagressões diárias reforçam a sensação de inadequação. Além disso, em ambientes pouco diversos, o erro de uma mulher tende a ser generalizado, enquanto seu acerto é tratado como obrigação.
Esse contexto cria um cenário no qual a exposição pública se torna um campo minado. Publicar artigos, ocupar espaços de fala ou liderar projetos passa a exigir não apenas preparo técnico, mas resistência emocional.
Reconhecer que essa insegurança é produzida sistemicamente é o primeiro passo para dissociar a identidade profissional de narrativas internas limitantes.
Autocrítica estratégica versus autossabotagem
A autocrítica não é, por si só, um problema. No Direito, ela é frequentemente um instrumento de excelência técnica. O risco surge quando deixa de ser ferramenta de aprimoramento e passa a operar como mecanismo de autossabotagem.
A autocrítica estratégica é orientada por critérios objetivos, feedbacks verificáveis e aprendizado contínuo. Já a autossabotagem se manifesta como punição interna, antecipação de fracasso e paralisia decisória.
Quando a profissional internaliza a ideia de que nunca está pronta, suficientemente preparada ou legitimada, o custo não é apenas emocional. Ele se traduz em menor visibilidade, menor influência e menor ocupação de espaços decisórios.
Nesse ponto, a Síndrome da Impostora deixa de ser apenas um desconforto subjetivo e passa a ter impacto direto na distribuição de poder dentro das organizações jurídicas.
Da dúvida ao protagonismo estratégico
Superar o Fenômeno da Impostora não significa eliminar o medo, mas impedir que ele se torne um princípio organizador da carreira. O protagonismo estratégico nasce da ação deliberada, não da ausência de insegurança.
Uma prática eficaz é a construção de uma arquitetura de evidências. Registrar feedbacks positivos, resultados concretos, vitórias processuais e produções intelectuais cria um acervo objetivo que funciona como âncora em momentos de distorção cognitiva.
Outro passo fundamental é ressignificar a relação com visibilidade. O silêncio protetivo pode parecer seguro no curto prazo, mas é o maior inimigo da ascensão profissional. Ocupar espaços de autoria, debate e liderança não é exposição gratuita, mas posicionamento estratégico.
Cada presença pública recalibra a percepção interna de pertencimento e enfraquece a narrativa da fraude.
O impacto direto em poder e influência
Quando a dúvida governa decisões, o prejuízo é estrutural. Menos mulheres ocupam mesas estratégicas, lideram negociações relevantes, influenciam a construção de precedentes ou participam da formulação de políticas institucionais.
O Fenômeno da Impostora, portanto, não é apenas uma questão individual. Ele afeta a pluralidade de vozes no Direito e limita a diversidade de perspectivas nos espaços de decisão.
Promover protagonismo feminino passa, necessariamente, por desmontar os mecanismos que silenciam essas vozes antes mesmo que elas se expressem.
O poder da rede e o papel estratégico do WLM
Nenhuma trajetória de alto impacto é construída de forma isolada. Redes de apoio qualificadas não são espaços acessórios, mas infraestruturas estratégicas de carreira.
Estudos do Fórum Econômico Mundial indicam que mulheres com acesso a redes de mentoria e apoio apresentam maior permanência em carreiras de alta complexidade e maior satisfação profissional. A rede oferece validação, espelhamento e segurança psicológica para o risco calculado.
É nesse ponto que o Women in Law Mentoring Brazil atua de forma decisiva. Ao criar ambientes onde o protagonismo feminino é norma, não exceção, o WLM transforma dúvida em movimento e cansaço em estratégia.
A validação entre pares enfraquece a narrativa da insuficiência e fortalece uma presença profissional mais assertiva, consciente e influente.
A Síndrome da Impostora não desaparece por decreto nem por motivação isolada. Ela perde força quando deixa de comandar escolhas.
O protagonismo estratégico no Direito exige consciência de contexto, ação deliberada e redes que sustentem trajetórias de longo prazo. Não se trata de eliminar a dúvida, mas de impedir que ela vete decisões, silencie vozes ou limite ambições.
No WLM, acreditamos que protagonismo feminino é presença consciente, influência legítima e construção coletiva de poder.
Quando mulheres ocupam espaços com lucidez e apoio, não apenas transformam suas próprias trajetórias, mas redesenham o próprio ecossistema jurídico.
Fontes:
Clance, P. R., Imes, S. A. The Impostor Phenomenon in High Achieving Women
Harvard Business Review. Research on Confidence and Performance
Fórum Econômico Mundial. Global Gender Gap Report


